Como evitar o medo, o terror e a escuridão na pós-graduação

No seu curso ou emprego, você já teve a sensação de que nunca tem tempo para nada e nunca encontra as coisas de que precisa, enquanto as atividades dos seus colegas parecem fluir tranquilamente? Calma! Talvez o seu problema não seja insolúvel, mas apenas um caso de mau gerenciamento de tempo e espaço. Vou propor aqui uma solução.

Costumo dar dicas sobre a carreira acadêmica no meu blog (Sobrevivendo na Ciência). Já escrevi, por exemplo, sobre a importância de usar bem o tempo. Este novo texto, preparado a convite do IPÊ (obrigado, Vinicius!), segue a mesma linha. E aprofunda a questão com uma ajuda especial vinda do Oriente.

O ponto é que a carreira acadêmica apresenta muitos desafios. Ela é como outras carreiras complexas e competitivas. Das que exigem longa formação e enorme investimento pessoal, sem garantias concretas de sucesso. Quem faz graduação ou pós-graduação pode estar atrás de conhecimento científico para aplicar na solução de problemas práticos da sociedade. Ou pode aspirar a se tornar um cientista profissional. Em ambos os casos, para concluir todos os graus, especialmente no caso da carreira de cientista, estamos falando de uma jornada que envolve, no mínimo, 25 anos de estudo. Uma trajetória que vai do ensino infantil ao doutorado (leia mais sobre essa jornada aqui e aqui).

É muito fácil se perder no meio desse longo caminho, pois há grandes tentações e provas a serem superadas. E, cada vez que nos perdemos, isso gera frustração e desânimo. Esses percalços podem servir até mesmo como gatilhos para transtornos psiquiátricos, como depressão e ansiedade. Assim, boas decisões devem ser tomadas nas mais variadas escalas. E elas englobam desde escolher um orientador adequado ao seu perfil até optar por aprender uma habilidade nova ou não.

Por exemplo, quando você para no meio um artigo que estava escrevendo para assistir um vídeo de gatinho que o seu colega te mandou pelo “zapzap”, está tomando, mesmo que de maneira inconsciente, uma má decisão. Isso tem consequências. O somatório de pequenas más decisões pode, em uma escala maior, levar a sua dissertação ou tese a ficarem engavetadas para sempre.

Aquele trabalho que consumiu de dois a quatro anos da sua vida, além dos recursos do orientador e muita verba pública, pode nunca virar papers, livros ou patentes. Da mesma forma, quando você não organiza bem as atividades que tem para fazer em uma determinada semana, pode chegar ao sábado sem ter rendido bem no trabalho. Provavelmente, você tampouco deu a devida atenção à sua família, gerando frustração para colegas, parentes e amigos. Um outro caso clássico de má decisão fica evidente em situações em que você não encontra um equipamento ou livro de que precisa. Provavelmente porque o seu laboratório é uma zona, onde as coisas mudam de lugar ou somem o tempo todo.

Metodologia 5S

Aqui vou focar em uma das melhores metodologias para organizar as suas atividades profissionais e até mesmo a sua vida pessoal: o 5S. Este pode ser um bom caminho para tornar a sua iniciação científica, especialização, mestrado ou doutorado menos estressantes e mais gratificantes.

Mas o que seria esse tal de 5S? Um novo modelo de “espertofone”? Não! Trata-se de um sistema de gerenciamento de atividades adotado em empresas japonesas desde os anos 1950. A metodologia tem raízes no xintoísmo e no budismo. Segue uma síntese gráfica do conceito:

Vamos explicar melhor o que significa cada um desses vértices.

整理, Seiri: senso de utilização

Envolve deixar no seu local de trabalho, seja ele uma mesa no laboratório do seu orientador ou um escritório pessoal na sua casa, apenas o que for necessário para desenvolver as atividades que pertencem àquele local, naquele tempo. Por exemplo, em uma escala de grupo de pesquisa, não faz sentido acumular quinquilharias no laboratório com a desculpa de que um dia, quiçá, elas poderão vir a ser úteis. Em uma escala individual, na semana que você está trabalhando em um determinado capítulo da tese, devem estar em cima da sua mesa apenas os artigos, livros e demais recursos que têm diretamente a ver com o texto em foco.

Se considerarmos o longo prazo, em qualquer escala de espaço, é uma boa ideia nos desfazermos de tudo o que não usamos com freqüência. O que é muito utilizado deve estar à mão. O que é pouco utilizado deve estar guardado de forma adequada. E o que quase nunca é utilizado deve ser emprestado, doado ou vendido.

整頓, Seiton: senso de organização

Depois que você fizer uma boa triagem e deixar no local de trabalho apenas as coisas necessárias, uma tarefa crucial é organizar tudo da maneira mais produtiva. Cada espaço em um laboratório deve ser arrumado de acordo com funções específicas. Por exemplo, uma sala deve ser a biblioteca, enquanto uma segunda sala pode ser o espaço de triagem de amostras biológicas. E uma terceira sala pode ser a central de computadores. Dentro de cada espaço, os itens pertencentes àquela função devem estar localizados em pontos estratégicos onde as pessoas mais precisarão deles. Faz sentido que o grampeador, os clipes, a tesoura e as resmas de papel reserva estejam localizados perto da impressora.

Também é recomendável que você organize todos os PDFs e trabalhos impressos importantes para a sua dissertação ou tese de forma clara, coerente e acessível. A literatura não-lida também deve ficar claramente separada da literatura já lida. O mesmo vale para os dados brutos da sua tese, que devem estar organizados de forma inteligível também para o seu orientador e seus colaboradores.

清掃, Seisō: senso de limpeza

Limpeza aqui tem um sentido amplo. Para render bem no trabalho, é preciso não apenas que não haja lixo espalhado pelo chão. É necessário também que, de tempos em tempos, você execute as tarefas de manutenção do seu computador, por exemplo. A limpeza e a organização devem contribuir ainda para você sentir bem ao trabalhar no espaço em questão. Por exemplo, é péssimo para a saúde e o moral de uma equipe acumular amostras biológicas fixadas em formol no mesmo local onde todos trabalham nos computadores. Isso obrigaria as pessoas a passarem várias horas por dia em um local com cheiro ruim e, às vezes, tóxico.

No seu espaço pessoal de trabalho, procure não deixar bagunça, como embalagens de correio abertas, restos de lanches ou tacos de beisebol.

清潔, Seiketsu: senso de higiene

Este senso tem a ver com padronização de tarefas e higiene de processos. Um laboratório ou mesmo um cientista individual só funcionam bem se forem estabelecidos protocolos claros para as diversas atividades desenvolvidas no dia-a-dia. Imagine reuniões de laboratório que acontecem aleatoriamente, sem um dia e horário fixos na semana, quinzena ou mês? Qual seria a chance de ter alta participação nelas? Imagine ir ao campo sem uma missão bem estruturada em tarefas exequíveis? Ou ter que analisar na sua tese amostras biológicas armazenadas como se fossem entulho no corredor?

Mesmo tarefas relacionadas à redação de artigos, livros e trabalhos de conclusão de curso precisam de um protocolo para funcionarem bem. Não acredite em lendas como “só vou trabalhar no capítulo 2 da tese quando a inspiração bater”. É preciso criar uma rotina até mesmo para atividades criativas, domando o seu cérebro e criando bons hábitos.

躾, Shitsuke: senso de disciplina

Os outros quatro sensos não fazem sentido, se você não tiver disciplina. Não basta definir uma organização impecável e protocolos bem azeitados, se depois você não for capaz de mantê-los. É aquela velha maldição de enganar a si mesmo, dizendo internamente “era para fazer agora, mas depois eu cuido disso”. Como manda o bom senso, depois que usar alguma coisa, sempre a devolva ao local de origem. Manter é mais fácil do que rearrumar.

É preciso também disciplinar o seu tempo. Defina horários, dias e semanas específicos para cada atividade que precisa realizar. Divida as tarefas maiores na escala dos meses. Depois, seja rigoroso consigo mesmo ao cumprir esse cronograma. Não se esqueça de reservar tempo também para cuidar da vida pessoal. Isso inclui família, amigos, atividades físicas, hobbies e práticas espirituais (em um sentido amplo).

Conselho final

Disciplina e criatividade não são mutuamente exclusivas. Não acredite no mito do “gênio indomável”. Cientistas loucos só fazem grandes descobertas em filmes e desenhos animados. Se você não é uma pessoa naturalmente organizada e disciplinada, sugiro fortemente que invista em melhorar seus hábitos de trabalho. Você pode, por exemplo, participar de cursos oferecidos no mundo corporativo. Há vários deles focados no desenvolvimento de habilidades de gerenciamento profissional.

No caso de estudantes de ciências ambientais, como a Ecologia e a Conservação, outra boa opção de treinamento são os cursos de campo. Exemplos são o próprio curso de Biologia da Conservação do IPÊ, o curso Ecologia da Floresta Amazônica e o curso Ecologia do Pantanal. Neles, além de aprenderem sobre o conteúdo temático, os estudantes praticam o gerenciamento acadêmico à exaustão. Faz parte das atividades principais desenvolver projetos curtos, de um ou dois dias, sob supervisão de professores ou por conta própria. Neles, recomeçar do zero em caso de falhas não é uma opção, porque simplesmente não dá tempo. Isso obriga os estudantes a investirem muito no planejamento dos projetos. Assim, colocam em prática boa parte da metodologia 5S, mesmo que não explicitamente.

Depois desse tipo de experiência, a maioria entende que dois anos para o mestrado e quatro anos para o doutorado, no fundo, são tempo à beça. E que a formação de cientistas, apesar de difícil, não precisa ser sofrida.

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