A APA Ilha Comprida e a proteção da biodiversidade

Estudos realizados para a elaboração do Plano de Manejo da APA Ilha Comprida reforçam a importância da região para a proteção da biodiversidade da Mata Atlântica no Estado de São Paulo

O Estado de São Paulo originalmente possuía aproximadamente 82% do seu território coberto pela Mata Atlântica e seus ecossistemas associados. Ainda que atualmente concentre os maiores remanescentes deste bioma no país, o processo de dilapidação dos recursos naturais não foi substancialmente diferente daquele observado no plano nacional. De acordo com dados da Fundação SOS Mata Atlântica, atualmente menos de 15% da cobertura vegetal do território paulista correspondem a esse bioma, e seus principais remanescentes estão concentrados na região costeira, nas Serras do Mar, da Bocaina e da Mantiqueira, nos Vales do Ribeira e do Paraíba e no Cinturão Verde de São Paulo.

O Vale do Ribeira abriga áreas extensas de restinga, manguezais, praias, estuários e ilhas, abrangendo ecossistemas aquáticos e terrestres, compondo um importante patrimônio ambiental e abrigando a maior porção contínua de Mata Atlântica do Estado de São Paulo. A região se destaca, também, por abrigar um importante estuário denominado como Complexo Estuarino-Lagunar de Iguape, Cananeia e Paranaguá, considerado um dos maiores criadouros de espécies marinhas do Atlântico Sul.

A APA Ilha Comprida — APAIC está situada no baixo Vale do Ribeira, no extremo sul do litoral do Estado de São Paulo. Foi instituída no ano de 1987, quando a região ainda fazia parte dos municípios de Iguape e Cananeia e atualmente ocupa a totalidade do município de Ilha Comprida, com aproximadamente 19.700 hectares. Estudos realizados para a elaboração do plano de manejo da APA Ilha Comprida pelo IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas revelaram que a região possui um significativo conjunto de atributos ambientais e histórico-culturais, e protege amostras bastante íntegras de ambientes como floresta alta e baixa de restinga, praias e dunas, escrube, brejos e manguezais, sendo que mais da metade do município é constituída de vegetação de restinga, apresentando áreas em excelente estado de conservação. Essa gama de ambientes diferentes contribui para a expressiva diversidade de espécies da região, muitas das quais são ameaçadas, endêmicas ou migratórias.

As pesquisas realizadas indicaram a ocorrência de cerca de 500 espécies de plantas, muitas delas endêmicas ou sofrendo algum grau de ameaça. A fauna local também se mostrou bastante diversa, com a provável ocorrência de cerca de 70 espécies de mamíferos, 60 de anfíbios e 50 de répteis. As aves se destacaram com o registro de mais de 340 espécies, sendo 55 endêmicas, 58 em delicada situação de conservação, e 45 espécies migratórias. Esses números tendem a aumentar com a realização de pesquisas de longo prazo na região, o que será fomentado pelo programa de pesquisa e monitoramento que está em elaboração no plano de manejo da unidade de conservação.

Na extensa área coberta por florestas de restinga é possível encontrar espécies enquadradas em alguma categoria de ameaça como, por exemplo, a maria-da-restinga (Phylloscartes kronei) e o papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis), que apresentam populações muito reduzidas, com uma importante área de ocorrência na Ilha Comprida. As regiões de praias e dunas e as lagunas e brejos também abrigam espécies de alta sensibilidade, além de servirem como sítios de alimentação, repouso e reprodução para numerosas espécies de aves migratórias. Destaca-se, por exemplo, a existência de uma colônia reprodutiva de guará-vermelho (Eudocimus ruber), com a presença de pelo menos 120 indivíduos da espécie, entre adultos e juvenis, e pelo menos 10 filhotes. Outras espécies que podem ser citadas são a saracura-matraca (Rallus longirostris), a saracura-do-mangue (Aramides mangle), o trinta-réis-anão (Sternula superciliaris), o talha-mar (Rynchops niger) e o trinta-réis-real (Thalasseus maximus).

As áreas de mangue da APAIC são bastante íntegras, reforçando sua relevância para manutenção de uma amostra desse ecossistema no litoral paulista. Também servem como abrigo para espécies migratórias e para espécies ameaçadas, como é o caso da ave figuinha-do-mangue (Conirostrum bicolor), espécie regionalmente ameaçada em função da perda de habitat. A região conta ainda com o registro de população de jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris), espécie ameaçada e topo de cadeia alimentar. Na APAIC também existem espécies de mamíferos ameaçados, como a jaguatirica (Leopardus pardalis) e a onça-parda (Puma concolor), cuja ocorrência foi registrada por um pesquisador que atua na região.

Além da riqueza da biodiversidade local, também chama a atenção a relevância do seu patrimônio histórico-cultural, que se destaca pela presença de mais de 30 sambaquis — sítios arqueológicos que constituem registros de povos antigos que ocuparam o território. Esses sítios são formados principalmente por aglomerações de conchas, sendo também possível encontrar restos de instrumentos líticos e objetos de adorno, além de ossadas de mamíferos, espinhas de peixes e até esqueletos humanos. A área ainda se destaca como importante para a conservação da cultura caiçara, suas práticas e saberes, sendo a que região de Pedrinhas é considerada a maior comunidade caiçara da Ilha. Esse enorme patrimônio ambiental e cultural reforça a importância do papel da APAIC como uma das promotoras da conservação dessa região e também como indutora de práticas mais sustentáveis em seu território.

A ilha apresenta áreas de grande beleza cênica, e conta com uma série de atrativos que abrangem tanto características naturais — como o Mar Pequeno, praias, dunas e trilhas em áreas de mata de restinga — quanto culturais, como sítios arqueológicos, com destaque para os sambaquis e vilas caiçaras, que podem ser explorados em atividades de recreação, ecoturismo e educação ambiental.

Essas características ainda possibilitam que a APAIC, além de contribuir com a conservação do patrimônio ambiental e cultural da Ilha Comprida, também venha a se tornar um instrumento de sensibilização da sociedade, devido a sua capacidade de influenciar um vasto número de pessoas, incluindo moradores e visitantes, disseminando informações e ressaltando a importância da conservação da Mata Atlântica e das riquezas ambientais e culturais associadas a esse ecossistema.

O plano de manejo da APAIC encontra-se em elaboração. Os interessados em participar das futuras oficinas de planejamento poderão entrar em contato com o IPÊ e conversar com Jussara Reis e Giovana Dominicci, ou com o escritório da Fundação Florestal em Iguape, pessoalmente ou por meio dos seguintes contatos: [email protected]; (13) 3841 2193.

IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas – O IPÊ foi fundado em 1992 e é uma instituição dedicada à conservação da biodiversidade em bases científicas. Atua em pesquisas, formação de profissionais, educação ambiental e programas de geração de renda e negócios sustentáveis que ampliem a responsabilidade socioambiental de comunidades, empresários e formadores de opinião. Sua missão é desenvolver e disseminar modelos inovadores de conservação da biodiversidade que promovam benefícios socioeconômicos por meio de ciência, educação e negócios sustentáveis.

Mais informações:

Angela Pellin – Pesquisadora e coordenadora de projetos do IPÊ e coordenadora do plano de manejo da APAIC.
[email protected]
Tel: (11) 9 7545 5368

Gestão da APAIC: Fundação Florestal/SMA. Praça São Benedito, 110 – Centro – Iguape/SP
[email protected]
Tel: (13) 3841 2193

 

 

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