Aracuãs, jacutingas e mutuns: os grandes semeadores do Pantanal

“Quem aperta o botão do amanhecer é o aracuã”. Assim o grande poeta pantaneiro Manoel de Barros (1916-2014) imortalizou a curiosa algazarra promovida diariamente pelos aracuãs na alvorada. Os “despertadores” pantaneiros fazem parte da família Cracidae. Este é um grupo aparentado com as galinhas, que ocorre apenas na região Neotropical.

No Brasil, a família conta com 24 espécies, mas apenas seis delas podem ser encontradas no Pantanal. São elas: o aracuã (Ortalis canicollis), os jacus (Penelope superciliaris e P. ochrogaster), o mutum (Crax fasciolata), a jacutinga (Aburria grayi) e o cujubi (Aburria nattereri).

Essas aves têm grande porte — todas pesam mais de um quilo — e habitam preferencialmente ambientes florestais. De vez em quando, podem ser avistadas comendo brotos e flores. Mas sua dieta preferencial é composta por frutos, incluindo coquinhos (engolidos inteiros!).

Assim como outros animais frugívoros — antas, queixadas e catetos — os cracídeos são considerados verdadeiros jardineiros das matas, atuando como peças-chave da intrincada engrenagem que move os processos ecológicos nos ecossistemas florestais. Ao comerem
 os frutos de suas plantas preferidas, eles disseminam uma boa variedade de sementes viáveis, de diversos tamanhos. Além disso, percorrem grandes distâncias durante o dia, e transportam as sementes para longe das árvores-matrizes. Assim promovem uma regeneração eficiente das manchas de florestas, contribuindo para sua manutenção e resiliência.

A perda dos jardineiros

A redução das populações dessas aves pode desencadear sérias consequências para a interação biológica da paisagem, no longo prazo. Aves desse porte são perseguidas impiedosamente em todo o Brasil, por sua carne muito apreciada. Ainda hoje, 
elas frequentam as panelas
 de diversas casas, inclusive
 em algumas regiões do Pantanal. Embora essa prática seja importante para certas comunidades, o fato é que a caça reduziu — e reduz — muito as populações dessas espécies, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. E os impactos da caça podem levar a extinções locais, somando-se aos efeitos do desmatamento e da perda
 de habitat.

No Pantanal, os modelos tradicionais de pecuária
 com manejo sustentável das paisagens nativas promoveram poucas alterações nos padrões ecológicos, ao longo de décadas. No entanto, a ampliação da pecuária extensiva em várias regiões da planície pantaneira causa drásticas alterações no bioma. E não somente pelo desmatamento. O impacto advém também
 do raleamento
 de cordilheiras e substituição da vegetação nativa por pastagens cultivadas. Esse tipo de intervenção isola as manchas florestais, altera a qualidade dos habitat e simplifica paisagens complexas, afetando negativamente a biodiversidade regional.

A investigação

Entre 2012 e 2013, realizamos estudos no oeste do Pantanal
 da Nhecolândia — no município de Corumbá, Mato Grosso do Sul — para avaliar como as alterações humanas afetam as populações de três espécies de cracídeos: aracuãs, jacutingas e mutuns. Para isso, delimitamos três áreas de 5 km² em paisagens com situações ecológicas e manejo distintos:

  1. com predominância de grandes blocos de florestas contínuas e conectadas;
  2. com predominância de pastagens nativas entremeadas por manchas florestais;
  3. parcialmente alterada por intervenções humanas como desmatamento, raleamento de cordilheiras e substituição da vegetação nativa por pastagens cultivadas.

Em cada uma delas, estabelecemos pelo menos 
cinco trilhas de cinco quilômetros que foram percorridas a pé. Nelas era realizada a contagem do número de indivíduos e/ou grupos dessas aves, incluindo anotações das respectivas distâncias em relação ao observador. Utilizamos um programa estatístico (DISTANCE) para avaliar os dados e estimar o tamanho das populações em cada área estudada.

Os resultados

Os resultados colhidos foram bastante esclarecedores. Eles revelaram a gradação de abundância das aves, em números, ao longo do gradiente de qualidade ambiental. Na área com predomínio de florestas densas, contínuas e conectadas verificamos maior número de indivíduos por área avaliada. Aí foram encontradas 429 jacutingas (7 indivíduos por hectare), 150 mutuns (5 indivíduos/ha) e 1.739 aracuãs (58 indivíduos/ha).

As áreas naturalmente fragmentadas, com predomínio de pastagens nativas entremeadas por manchas florestais, também mantêm populações razoáveis, embora menores. Contamos
 259 jacutingas (4 indivíduos/ha), 91 mutuns (3 indivíduos/ha) e 720 aracuãs (23 indivíduos/ha).
 A condição mais precária foi observada na área alterada pelas intervenções humanas, onde
 as populações dessas aves são drasticamente reduzidas. Nela, foram contabilizadas 18 jacutingas (0,6 indivíduos/ha) e 338 aracuãs (11 indivíduos/ha). Quanto aos mutuns, contrariando nossas expectativas, a população na área alterada se manteve similar à da área densamente florestada, com 149 aves (5 indivíduos/ha).

Na área 3, onde houve intervenções humanas em parte da paisagem, a falta de manejo nas pastagens onde outrora vicejavam cordilheiras favoreceu o estabelecimento de plantas típicas do Cerrado. Ao longo dos anos, esses ambientes se transformaram em uma “savana artificial”. E os mutuns são aves que exploram os solos tanto de florestas, como 
os de cerrados e campos sujos. Raramente eles são vistos se alimentando na copa das árvores, como os demais cracídeos do Pantanal. Desta forma, o aumento na proporção desse tipo de “savana artificial” pode, em parte, explicar os resultados obtidos para a espécie na área alterada.

O efeito das intervenções na paisagem

O estudo confirma que intervenções mais severas na paisagem afetam negativamente três das espécies de cracídeos no Pantanal, levando ao decréscimo substancial de suas populações. E, isso, levando-se em consideração apenas a questão da modificação de seus habitat naturais.

Diferentemente de outros lugares do Brasil, no Pantanal ainda podemos ver — e ouvir — os cracídeos desempenhando seus relevantes papéis como dispersores de sementes e integrantes da biodiversidade. Entretanto, se as intervenções humanas prosseguirem na escalada 
atual, provavelmente os únicos vestígios da existência de aracuãs, jacutingas e mutuns a permanecer serão aqueles eternizados nos poemas do saudoso Manoel de Barros.

Texto publicado originalmente na Revista Ciência Pantanal vol 3, n. 1, 2017.

Autores: Alessandro Pacheco Nunes, Rudi Ricardo Laps, Walfrido Moraes Tomas e Marcelle Aiza Tomas

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