Limited Open Access: Um novo modelo de conservação da natureza

Hoje, há certo consenso de que é preciso fazer alguma coisa para salvar a natureza. Mesmo os mais céticos não podem negar que, atualmente, existe uma quantidade de árvores um pouco menor do que no dia em que Pedro Álvares Cabral pisou pela primeira vez por aqui. Alguma coisa tem que ser feita. No entanto, como fazer isso, ou seja, como salvar a natureza, tem sido motivo de longas brigas e discussões. Muitas vezes, mais fervorosas que de grupos de WhatsApp discutindo as eleições de 2018.

Recentemente, junto com o meu colega da Universidade de Cambridge, Dr. Mark Dyble, mostramos que parte do que pensávamos sobre como proteger a natureza estava errado, publicando os nossos achados em uma das mais importantes revistas científicas de conservação da natureza, Conservation Letters.

Uso sustentável de recursos

Basicamente, desde a década de 1990, há certo consenso sobre que o uso sustentável dos recursos pode apenas ser alcançado com a definição de regras e limites bem definidos. Por exemplo, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Marmirauá, após a definição de quem poderia utilizar os lagos para pesca de pirarucu, e do estabelecimento de punições para aqueles que desrespeitassem essas regras, tudo melhorou. A população do pirarucu aumentou, assim como a renda das pessoas.

O que descobrimos, no entanto, é que: em ambientes com recursos imprevisíveis (ou que constantemente mudam de lugar), essas regras e punições não funcionam. Alinhando modelagem matemática, um longo estudo etnográfico com pescadores do Pantanal e dados coletados com imagem de satélite, conseguimos mostrar que a falta de regras e sanções é o fator que torna o ambiente sustentável.

Limited Open Access: um novo modelo

No Pantanal, por exemplo, devido ao pulso de inundação, o recurso está constantemente mudando de lugar. Para lidar com isso, comunitários compartilham constantemente informações sobre as áreas de pesca, e juntos conseguem descobrir “onde está o peixe”. Uma vez que um descobre, todos vão juntos. Entre os pescadores, acontece algo que poderíamos chamar de Open Access, que, pela teoria clássica, levaria ao colapso socioambiental — tragédia dos comuns. Isso, entretanto, acontece apenas dentro da mesma comunidade. Chamamos esse novo modelo de “Limited Open Access”.

As consequências desse achado na prática são bastante grandes. Por exemplo, se restringíssemos esses comunitários do Pantanal e de outros sistemas socioambientais semelhantes, impondo regras e sanções como previsto pela teoria, levaríamos ao colapso dos recursos e da comunidade em si. Em casos como esses, é fundamental respeitar esse nível de “open access” no sistema.

As comunidades do Pantanal em si encontram-se em grande perigo. Durante muitos anos, severas restrições foram impostas para que não entrassem em regiões ecologicamente sensíveis. Defendemos no artigo, por exemplo, que, no caso do Pantanal, é fundamental a criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável que contemplasse esses achados, ajudando a preservar as comunidades e o Pantanal.

Um novo olhar

Enfim, esse é o começo de uma nova maneira de olhar a conservação da natureza. Com certeza não é um modelo final, nem perfeito. Mas traz importantes questões que devem ser consideradas daqui para frente nas iniciativas de conservação da natureza. Se isso não acontecer, provavelmente as consequências vão ser mais severas que as brigas no grupo da família.

O artigo pode ser acesso livremente (open access) aqui:

Limited open access in socioecological systems: How do communities deal with environmental unpredictability?

E outras referências importantes do post seguem abaixo:

Campos‐Silva, J. V., & Peres, C. A. (2016). Community‐based management induces rapid recovery of a high‐value tropical freshwater fishery. Scientific Reports6, 1‐13.

Moritz, M., Scholte, P., Hamilton, I. M., & Kari, S. (2013). Open access, open systems: Pastoral management of common‐pool resources in the Chad basin. Human Ecology41, 351‐365.

Ostrom, E. (1990). Governing the commons. Cambridge, England: Cambridge University Press.

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