Cadê as salamandras? Uma história do mapeamento de biodiversidade

Cadê? Esta é uma pergunta que todos nós fazemos quase todos os dias. Talvez ao procurar suas chaves, dirigir até uma loja, ou, se você é um biólogo como eu, você pode estar procurando por algum sapo ou inseto estranho. A procura por coisas, reais ou fantásticas, tem ocupado a atenção da humanidade por toda a história, e podemos assumir que muito antes disso.

Hoje, encontrar coisas é muito mais fácil que antigamente. Nós temos a internet para nos ajudar a encontrar informações, o Google Maps para ajudar a encontrar aquela loja ou a casa de um amigo, e satélites no espaço constantemente espiando o planeta. Os Sistemas de Posicionamento Global (GPS) ajudam a manter tudo funcionando bem.

Então foi uma grande surpresa um dia em que eu tentei encontrar algo, e não consegui. Eu queria saber onde se encontravam as salamandras; na verdade, todas as salamandras. Era 18 de maio de 2013. Eu sei disso porque o Facebook me contou quando foi que isso aconteceu, um ponto ao qual eu vou voltar. Eu estava em uma biblioteca em Franklin, na Carolina do Norte, uma cidadezinha na porção meridional dos Montes Apalaches, nos Estados Unidos. É um belo lugar cercado por uma Floresta Nacional.

Não era à toa que eu queria saber onde estavam as salamandras. Eu cresci no sul dos Apalaches. Quando criança, eu saía com frequência para a floresta e para os córregos para pegar salamandras. (Eu ainda faço isso de vez em quando como adulto também). As salamandras são de todas as cores e tamanhos, desde alguns poucos centímetros até gigantes de mais de um metro. Muitas são encontradas somente no sul dos Apalaches. Eu sabia que deveria estar perto do centro global de diversidade de salamandras.

Agora, meus colegas brasileiros podem estar achando que eu sou doido. Primeiro, mesmo que saibam o que é uma salamandra, é provável que eles nunca tenham visto uma. Aqui está uma foto de uma que eu peguei no Tennessee (EUA), minha terra natal.

Northern red salamander (Pseudotriton ruber) - Clinton N. Jenkins
Salamandra-vermelha (Pseudotriton ruber). Clinton N. Jenkins.

Há mais de 500 tipos de salamandras, mas praticamente nenhuma no Brasil; ou, se há alguma, então ninguém encontrou ainda. O mesmo é verdadeiro para a África e a Austrália, e de fato para grande parte do mundo. Como biólogo, eu meio que sabia disso, mas eu queria saber precisamente onde ficava o pico de diversidade de salamandras. Na verdade, eu queria saber se era perto da cidade de Franklin, porque então eu poderia dizer que estive lá. E então, sentado na biblioteca em frente ao meu computador, eu fiz o que qualquer um faria. Eu perguntei ao Google… Depois eu perguntei ao Google de novo, tentando diferentes palavras e frases. Sem sorte. Então eu tentei outros buscadores, sem sorte também.

Eu estava chocado! Como era possível? Depois de séculos de exploração pelos biólogos, e os avanços enormes em ciência e tecnologia nas últimas décadas, ninguém era capaz de me dizer onde estavam todas as salamandras? Para tipos individuais de salamandras, sim, eu podia achar mapas em sites técnicos especializados. O tipo de site que a maioria das pessoas nem sabe que existe. Isso me chateou muito. Um, porque eu não gosto quando não encontro a resposta para uma pergunta. Dois, porque eu me preocupava com o futuro das salamandras. Como conservacionista, eu trabalho para salvar espécies da extinção. Eu me preocupava sobre como vamos saber onde salvar espécies, quando eu não conseguia nem sequer saber onde estavam algumas salamandras.

Por um momento, eu estava indignado. Todos aqueles biólogos correndo pra todo lado, e ninguém tirou um tempo para responder à minha simples pergunta. Depois eu pensei por alguns minutos… e então eu me senti meio bobo. Havia uma pessoa que poderia responder a minha pergunta. Um biólogo, que gosta de salamandras, e que sabe analisar mapas… eu. E assim eu fiz. Aqui está a resposta.

Caudata - Salamandras
Mapeamento da diversidade de espécies de salamandras

Não levou muito tempo, talvez uma hora. Então eu postei meu mapa de salamandras no Facebook, porque é isso que se faz. Meu amigos nerds gostaram, fizeram seus comentários e compartilharam. Eu sorri, porque é o que se faz quando alguém gosta das suas postagens no Facebook. Então me ocorreu. Onde estão os papagaios, os beija-flores, as formigas? Então começou a busca, o mapeamento da vida na Terra, e a origem do BiodiversityMapping.org.

Mapeamento de biodiversidade

Para proteger as muitas variedades de vida no planeta, ajuda muito saber onde elas estão. Nós vivemos em um planeta grande, com muita gente, mas ele também tem milhões de espécies diferentes de plantas, animais e outras criaturas estranhas. Alguns locais abrigam grande variedade, como a Mata Atlântica brasileira, onde eu moro hoje. Outros lugares têm muito pouca, como a Antártica. E nem todos os lugares têm todas as criaturas. Você gosta de beija-flores? Fique com as Américas e suas mais de 300 espécies. Não há beija-flores no resto do mundo. Marsupiais, melhor procurar na Austrália, apesar de termos algumas espécies nas Américas também. Os oceanos também são desse jeito. Muitos pepinos-do-mar em volta de Madagascar, nem tantos assim em torno da América do Sul. E assim por diante.

Mapa - Trochilidae (Beija-flores)
Beija-flores
Mapeamento de biodiversidade: Marsupiais
Marsupiais

Saber o que fica aonde faz diferença, já que protegemos apenas uma parte do planeta para a natureza. Se queremos salvar os beija-flores ou os caracois-cone da extinção, uma das coisas mais importantes a se saber é onde eles estão. Salvar a Antártica é ótimo para os pinguins, mas não ajuda em nada os beija-flores e caracois-cone. Há, porém, um bocado de pepinos-do-mar por lá também.

Caracol-cone: mapeamento de biodiversidade
Caracois-cone
Pepinos-do-mar: mapeamento de biodiversidade
Pepinos-do-mar

Então a próxima vez que você tiver uma questão profunda, e ninguém parece saber a resposta, tire um minuto para pensar. Talvez você seja a pessoa certa para responder aquela pergunta — para si mesmo e para todo mundo também.

Caracol-cone (Conus mordeirae)
Caracol-cone (Conus mordeirae)

Obrigado a Manuel Jimenez Tenorio pela foto do caracol-cone Conus mordeirae.

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