Mulheres de ImPACTO – Suzana Padua

Por Ludmila Pugliese, do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica

 

“Se você trabalha ou gosta de temas como conservação e restauração, certamente já ouviu falar de Suzana Machado Padua. Suzana é uma unanimidade. Por seus trabalhos à frente da Instituição que ajudou a criar, por sua paixão pelo que faz, e sobretudo por sua simplicidade e doçura. Se você não a conhece, aqui está um pouco da história dessa mulher, inspiração e madrinha do nosso GT.

Nunca pensei em trabalhar nesse campo, mas a vida acabou me levando a isso e sou grata pela paixão que sinto pela causa e pelo privilégio de trabalhar em algo que acredito tanto.

Carioca de berço e designer por formação, Suzana conta, que ironicamente, seu pai era caçador e que dessa forma foi exposta e se apaixonou ainda muito cedo pela natureza. “Nunca pensei em trabalhar nesse campo, mas a vida acabou me levando a isso e sou grata pela paixão que sinto pela causa e pelo privilégio de trabalhar em algo que acredito tanto”.

Tornou-se conservacionista após uma mudança radical em sua vida. Claudio Padua, seu parceiro de vida e profissão, largou o mundo empresarial para voltar à universidade e estudar biologia, “com o sonho de trabalhar com espécies ameaçadas, principalmente primatas”.

Suzana conta que a princípio achou tudo uma grande maluquice. Mas aos poucos se contagiou pela paixão de proteger a natureza e começou a trabalhar com educação ambiental, ocasião em que foram morar no extremo oeste do Estado de São Paulo, na região conhecida como Pontal do Paranapanema.

Bom, a partir daí muitos de nós conhecemos os resultados de tamanha aventura. E o que começou como um hobby acabou se tornando um propósito maior na vida do casal.  “Compartilhar o valor da natureza para que todos celebrem a vida como merecem” nas palavras de Suzana, complementando ainda que em sua visão “a educação ambiental era muito mais do que uma linha de trabalho – era um guia de vida”.

Com esse propósito em mente e muita determinação, Suzana concluiu mestrado e doutorado na área ambiental, desenvolveu diversas pesquisas e hoje ministra aulas no IPÊ – Institutos de Pesquisa Ecológicas, fruto desse sonho e inciativa do casal.

Entrevista

PACTO: Conte um pouco da história e dos trabalhos realizado pelo –  IPÊ Institutos de Pesquisa Ecológicas.

Suzana: O IPÊ teve início com o projeto de doutorado do Claudio (Padua), pois sempre tivemos estagiários em nossos estudos de campo. O mico-leão-preto foi o foco inicial, e até hoje é um símbolo da instituição. O Claudio trabalhava com a ecologia da espécie e eu com a vertente humana de educação e posteriormente alternativas de renda para comunidades menos favorecidas, principalmente de assentados que se tornaram numerosos no Pontal do Paranapanema.

Foi assim que em 1992, com um grupo de uns 8 jovens apaixonados e obstinados pela conservação, fundamos o IPÊ. A maioria, hoje já não tão jovem, representa a grande riqueza da instituição, cada um com seus conhecimentos, suas áreas de expertise que se somam ao todo.

Sempre acreditamos em educação – compartilhar o conhecimento que adquirimos no campo e no mundo acadêmico. Começamos a oferecer cursos de curta duração em todos os temas do que tinham sido difíceis para nós aprendermos.

Depois ousamos mais um passo meio inusitado. Como muitos de nossa equipe obtiveram seus próprios doutorados, tínhamos um número de doutores suficientes e foi assim que há quase 10 anos aplicamos para sermos reconhecidos pela CAPES (MEC) como instituição apta a oferecer um mestrado. Além de cursos temáticos e mestrado, hoje temos também um MBA que oferecemos junto a CEATS (FEA/USP).

Isso porque acreditamos que o Brasil, país megadiverso, precisa de um time de gente espalhado por todo canto preparada para trabalhar pelas questões socioambientais de maneira eficiente e com qualidade. É assim que funciona a Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade – ESCAS do IPÊ e os sonhos continuam. Pensamos em um dia quem sabe oferecermos doutorado ou até uma escola infantil?


PACTO: Ao longo de sua carreira você encontrou alguma barreira ou oportunidade condicionada a gênero?

Suzana: Durante muito tempo me recusei a trabalhar com mulheres de forma diferente do que com os homens, pois acreditava na igualdade de gênero. O que ocorre é que no interior os papéis são muito diferentes e acabamos promovendo atividades especiais para as mulheres que até hoje são de grande sucesso. Portanto, a barreira inicial fui eu mesmo quem impôs, e ao perceber ficou mais fácil de demovê-la.


PACTO: Você tem um papel de liderança na área e região onde atua. O que considera relevante no seu estabelecimento nesta posição?

Suzana: Venho de uma família bem tradicional onde os papéis eram radicalmente distintos entre o da mulher e o do homem. Eu é que nunca aceitei muito essas restrições e fui enfrentando os desafios. Alguns só percebi anos depois que já tinha passado a experiência.

Hoje sou Presidente do IPÊ, posição que ocupo há muitos anos. Talvez no terceiro setor, o mundo das ONGs no Brasil seja diferente, pois instituições significativas são lideradas por mulheres, ou já foram com sucesso no passado. O mundo empresarial tem mais entraves, pois participo de grupos de mulheres do setor privado e percebo a diferença. O fato é que em todos os setores a mulher tem que provar sua capacidade, o que é bem desgastante e cansativo. Não sinto isso no IPÊ, que aliás é bem equilibrado tanto no nosso grupo de pesquisadores, no staff e no Conselho. E o que é melhor, funciona bem!


PACTO: Que características você destaca, e que parceiros ou estratégias usou para chegar onde está?

Suzana: Tem um ditado antigo que diz “os cães ladram e a caravana passa”. Se prestarmos atenção aos cães ladrando podemos não sair do lugar. Creio que trabalhar por propósito, meta, realização de objetivos é um achado valioso. Nos faz seguir adiante e nem perceber as pedras no caminho…


PACTO: Você acredita que exista igualdade de oportunidades para mulher e homens na área ambiental?

Suzana: As pesquisas do Fórum Econômico Mundial quanto à gênero são bem profundas e mostram uma desigualdade chocante, mesmo no mundo das ONGs. Ainda é marcante a diferença entre países e em alguns setores mais acentuados que em outros. Mas, sempre acreditei na igualdade de oportunidades e na capacidade também inquestionável das mulheres. Não vejo nem a necessidade de comparação entre homem e mulher porque não acho pertinente. Mulher é capaz e pronto, assim como os homens.


PACTO: O que podemos fazer para mudar essa realidade?

Suzana: Eu acredito que tudo já esteja mudando e é o exemplo e as conquistas que levam a um novo cenário. Creio que devemos ir adiante e fazer o que é correto e não nos atermos às limitações. Se não, paramos ao invés de avançarmos e a vida merece ser vivida em sua plenitude.”

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