O que o Chacrinha tem a dizer aos conservacionistas?

 

Eu acredito no poder da comunicação para que tenhamos sucesso em projetos de conservação. Esse é um dos motivos pelos quais tenho dedicado boa parte do meu tempo pensando, estudando e descobrindo novas formas de comunicar cada vez mais e melhor o trabalho do IPÊ com a conservação do mico-leão-preto (principalmente) e é, também, um dos motivos de estar aqui escrevendo esse texto.

Ser convidada para ter uma coluna no blog do IPÊ me fez refletir sobre isso e, o mais legal, é que esse primeiro post foi escrito durante um mês muito intenso de atividades de divulgação. Vou contar um pouco mais aqui pra vocês…

Todos os anos acontece um congresso de primatologia — em anos pares, o internacional; e em anos ímpares, o brasileiro. Além de congressos serem uma ótima oportunidade para conhecer um pouco mais sobre o que tem sido feito em pesquisas, nesse caso com primatas, também podemos mostrar “ao mundo” o que fazemos. Isso sem nem mencionar a possibilidade de conhecer grandes referências e as conversas “de corredor” e durante os coffee-breaks, que aumentam incrivelmente seu networking, que eu considero um dos maiores ganhos da participação em eventos assim.

O encontro com grandes referências durante o congresso! Da esquerda para a direita: Gabriela Rezende (eu), Jane Goodall, Suzana Padua, Russell Mittermeier e Claudio Padua.
O encontro com grandes referências durante o congresso! Da esquerda para a direita: Gabriela Rezende (eu), Jane Goodall (the Jane Goodall Institute), Suzana Padua (IPÊ), Russell Mittermeier (SSC PSG/IUCN) e Claudio Padua (IPÊ).

Considero a participação em congressos como um investimento e esse ano resolvi “investir” no Congresso Internacional de Primatologia (ou Joint Meeting of the International Primatological Society and the American Society of Primatologists), que aconteceu em agosto, em Chicago, EUA. Imagine 2000 pessoas reunidas, conversando sobre primatas! Praticamente um paraíso para quem gosta do assunto, não é? E lá estava eu, apresentando alguns dos resultados das pesquisas com o mico-leão-preto no Pontal do Paranapanema (SP). Mas, mais que isso, trocando ideias com as diversas pessoas que se interessavam pelo trabalho, pois fazem ou querem fazer algo parecido, e também aprendendo com elas.

A pesquisa científica sempre foi a base das ações de conservação do IPÊ, e poder mostrar ali para centenas de pessoas como se dá essa relação é disseminar sementes de conservação em um mundo de pesquisadores, que estão cada vez mais deixando de ser puramente científicos e se arriscando em dar passos para salvar as espécies que estudam. Como?

Comunicando, fazendo com que as informações que descobrem no campo cheguem a um público mais amplo e, principalmente, aos tomadores de decisão (sejam eles governantes, empresários e até os pequenos e grandes proprietários de terra das regiões onde trabalhamos).

Aquele momento em que você finge que tem um espelho na sua frente e apresenta pra você mesmo, como se não houvesse um público te assistindo :)
Aquele momento em que você finge que tem um espelho na sua frente e apresenta pra você mesmo, como se não houvesse um público te assistindo 🙂

Mas se a ideia era colocar o mico-leão-preto em destaque, esse congresso “saiu melhor que a encomenda”, pois além de podermos apresentar os resultados, fomos agraciados com um prêmio. Senta que lá vem (mais) historia…

Logo no primeiro dia dos Congressos Internacionais de Primatologia, costuma acontecer a reunião em que se decide a lista dos 25 primatas mais ameaçados do mundo (Primates in Peril: The World’s 25 Most Endangered Primates), uma iniciativa do Grupo Especialista de Primatas da IUCN (SSC PSG/IUCN). Essa lista é publicada a cada dois anos após o congresso, e o mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus) já fez parte dela na primeira edição em 2000-2002 — junto com o dourado (L. rosalia) e o cara-preta (L. caissara). Segundo Russell Mittermeier, presidente do PSG, o propósito dessa lista é:

“Destacar as espécies de primatas que correm maior risco, atrair a atenção do público, estimular os governos nacionais a fazerem mais pela conservação dessas espécies e, especialmente, encontrar recursos para implementar as medidas de conservação necessárias.”

O próprio Mittermeier é quem abre a reunião com uma apresentação sobre a situação dos primatas no mundo. Mas esse ano, antes de sua apresentação, fez uma homenagem a alguns grandes primatólogos, incluindo Adelmar Coimbra-Filho (falecido este ano), o “pai da Primatologia no Brasil” e quem iniciou as atividades de conservação dos micos-leões. Em seguida, ele apresentou os ganhadores do Prêmio de Excelência na Conservação de Primatas 2016, oferecido pela Fundação Margot Marsh. Para nossa grata surpresa, os responsáveis por terem tirado o mico-leão-preto dessa lista dos mais ameaçados foram chamados a subir ao palco: Claudio Valladares-Padua e Suzana Padua.

O casal Claudio e Suzana Padua recebendo o prêmio de Russell Mittermeier.
O casal Claudio e Suzana Padua recebendo o prêmio de Russell Mittermeier pelos 32 anos de dedicação à conservação do mico-leão-preto.

Receber prêmios é extremamente gratificante, pois reflete o reconhecimento do nosso trabalho e nos faz ter certeza de que estamos no caminho certo, de que todo esforço valeu a pena! Além disso, gera muita visibilidade ao projeto e à espécie, e é isso uma das coisas que buscamos quando falamos em comunicação dos resultados, certo? Os benefícios de se investir em comunicação para o sucesso na conservação são infinitos, e eu voltarei a esse assunto em uma postagem futura aqui no blog. Mas, por enquanto, lembre-se sempre das palavras do grande comunicador Chacrinha:

“Quem não se comunica, se trumbica!”

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