Achismo, fakenews e não-notícia sobre meio ambiente: os peixes do Pantanal

Comecei minha carreira como biólogo no Pantanal. Lembro-me de que a primeira coisa que ouvi foi que a população local de peixes tinha sido dizimada. O que se ouvia é era que o rio tinha sido devastado pelos pescadores profissionais. Como um biólogo tentando salvar o mundo, eu fui facilmente convencido dessa ideia.

No entanto, eu não fui convencido sozinho. A ideia se espalhou por toda a região, e tomadores de decisão começaram a estabelecer medidas para proteger os peixes do Pantanal a qualquer custo. Como se diz: os fins justificam os meios. Assim, ao longo dos anos limitaram o equipamento que o pescador poderia utilizar, aumentaram o tamanho mínimo do peixe, reduziram a sua quota e proibiram a pesca de algumas espécies. Claro, como muitos outros, apoiei todas essas medidas. Queríamos salvar o Pantanal.

Jaguar's Breath

Uma “outra verdade”

No entanto, depois de alguns anos trabalhando na região e conhecendo alguns pesquisadores que trabalhavam com peixe havia anos, comecei a me deparar com uma “outra verdade”. Aparentemente, a ideia de sobrepesca no Pantanal foi amplamente difundida por empresas de turismo de pesca esportiva que haviam visto quedas no número de pessoas que vinham ao Pantanal (cerca de 50 mil na década de 1990 para menos de 10 mil em 2010). Dizia-se que os turistas não vinham mais porque não havia mais peixe. E que não havia peixe por causa da pesca excessiva dos pescadores profissionais. Por muitos anos, não havia como refutar o que as empresas de turismo estavam dizendo. Não havia dados consistentes. Também não tínhamos noção do poder das “fake news”, ou “não-noticia”.

Não-notícia

Fake news” é um dos termos mais modernos do mundo. Devido à eleição dos EUA, Brexit, impeachment no Brasil e alguns mais confrontos políticos locais, notícias falsas e notícias sobre notícias falsas têm dominado os jornais. Alguns até chamam de a era da pós-verdade. Com a conservação da natureza não é diferente. A notícia falsa é um fenômeno crescente e está presente em toda parte. Muitas afirmações de que comunidades tradicionais estão destruindo o ambiente não se baseiam em fatos ou evidências (por exemplo, desertificação causada por pastores na África já foram veementemente desconstruídas, embora ainda muitos insistam em afirmar) (ver artigos da Prof. K. Homewood). São apenas “achismos” que se tornam verdade. Em outras palavras, #fakenews.

Artigo

Este mês eu publiquei um novo artigo na revista Conservation and Society mostrando que o tal colapso dos peixes no Pantanal é, de fato, uma não verdade. Ou, o que alguns podem chamar de “uma narrativa ambiental”. Primeiro, o artigo desconstroi a reivindicada pesca excessiva causada pela população local no Pantanal. Através de modelagem matemática, mostra que a queda no número de turistas é explicada principalmente pelas mudanças na legislação. Em outras palavras, quando o governo começou a forçar a população local a parar a pesca, eles estenderam algumas medidas aos turistas, que resolveram ir para outros lugares. Cada vez que o governo restringia o poder de pesca, menos pessoas iam ao Pantanal.

Revisando todos os estudos na região, também mostrei que não existe evidência científica de sobrepesca no Pantanal. Os poucos estudos não mostram nenhum sinal de esgotamento. Além disso, durante o estudo eu pude descobrir uma série de mecanismos pelos quais os pescadores locais gerenciam recursos de forma sustentável. O sistema tradicional funciona da seguinte maneira: um grupo de pescadores vai para um local de pesca, enquanto alguns outros tentam novas áreas. Se alguém encontrar um lugar melhor, ele/ela informa os outros, e todo mundo se move para lá. Isto é repetido constantemente durante o período de pesca. Ao longo do ano, este processo de movimento cria um Sistema Rotacional de Pesca dividido em três ou quatro grandes regiões.

Compartilhamento de informação

Informações sobre locais de pesca são compartilhadas durante várias sessões de tereré realizadas todos os dias. As pessoas tendem a não esconder a informação, estabelecendo um senso de reciprocidade. No entanto, a abertura com os vizinhos próximos não se estende aos residentes de outras comunidades. Os pescadores são muito claros sobre limites que os grupos de outros assentamentos precisam respeitar. Há uma sensação de território. Finalmente, as mudanças na conectividade entre áreas, através de mudanças nos canais fluviais ou “entupimento”, são levadas em consideração nas adaptações de meios de subsistência das pessoas. Todos os anos, um conjunto de baías e lagos estão disponíveis para serem utilizados pelos pescadores. O simples fechamento de baías pode transformar os corpos d’água em refúgios naturalmente inexploráveis ​​para espécies aquáticas. Ou seja, distintas populações de peixes ficam protegidas.

As estratégias adaptativas de reciprocidade e territorialidade dos pescadores locais, ao lado desta mudança de restrições biofísicas neste ecossistema dinâmico, provavelmente criam um uso sustentável dos recursos naturais. Muito diferente do que foi retratado por políticos e empresas de turismo.

É improvável que os tomadores de decisão ou proprietários de empresas de turismo no Pantanal lerão meu artigo na revista ou esse post. E cada vez que eu voltar ao Pantanal vou ouvir a mesma história da sobrepesca dos pescadores profissionais. Só que desta vez temos provas científicas para desconstruir as notícias falsas no Pantanal. Parte dessa informação, por exemplo, já foi entregue a ONGs locais e promotores, e algumas medidas de apoio para as populações locais foram agora postas em prática. Claro, é preciso que haja restrições aos pescadores, regras, exigir que respeitem a lei. No entanto, as decisões sobre tais regras devem ser baseadas em evidencias científicas. Do contrário, vira achismo. Ainda temos um longo caminho a percorrer para chegar a essa realidade. O desafio está apenas começando, e todos são bem-vindos a entrar nessa canoa!

Você pode ver o artigo aqui.

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