Pecuária regenerativa brasileira pode ser líder em sustentabilidade: ambiental, social e econômica

É recorrente a ideia pré-concebida de que a pecuária é uma atividade com elevada pegada ecológica. Seja pelas grandes áreas de produção, emissão de gases do efeito estufa, desmatamento, entre outros. Porém, muitos dos impactos ambientais que se atribuem à pecuária estão mais relacionados à forma com que o manejo é realizado do que com a criação desses animais propriamente dita. Este é o meu foco ao longo deste artigo.

Estudos mostram que, desde o final dos anos 1970, a necessidade da população mundial por recursos naturais é maior do que a capacidade do planeta em renová-los. Dados recentes demonstram que a atual sociedade utiliza cerca de 50% a mais do que a biocapacidade do planeta. Em outras palavras, o padrão de consumo per capita demanda um planeta e meio, de acordo com o WWF.

Realmente, a atual pecuária tem impacto ambiental. Assim como os outros setores da economia: o agronegócio como um todo, indústria, turismo, prestação de serviços. Também não se pode desconectar ou isentar desse processo o comportamento das pessoas no cotidiano. Dessa forma, é primordial que ajustes sejam feitos para obtenção de uma harmonia entre as demandas da sociedade e a natureza. Isso ajudaria a equacionar o atual antagonismo do modelo econômico vigente. Como pode-se citar:

  • redução do consumismo desenfreado;
  • rastrear e certificar que seus alimentos respeitam a cadeia de custódia sustentável;
  • uso racional da água potável;
  • usar fontes renováveis de energia limpa;
  • reciclar o lixo orgânico e o lixo seco de forma separada;
  • tratar o esgoto; entre outros.
Pecuária no Brasil

Voltando a atenção para o caso particular da pecuária brasileira, de acordo com dados publicados pela Embrapa, IBGE, CNA, entre outros, aproximadamente 71% das propriedades rurais têm a pastagem como forma de uso do solo. Os 29% restantes são destinados a todas as outras atividades. O destaque vai para as lavouras da agricultura, produção de frutas e florestas plantadas.

Informações da pesquisa realizada pelo Ministério do Meio Ambiente e IBGE mostram que as pastagens ocupam 198 milhões de hectares (23% da área do país), dos quais 90 milhões de hectares estão abandonados ou degradados, como mostra a figura:

Pecuária regenerativa, uso solo e terras degradadas

 

A Triqueda e Real Consultoria analisou o lucro líquido médio por hectare ao ano do agronegócio brasileiro em 2016. Encontrou os seguintes números:

  • R$ 300 para a pecuária (média corte e leite);
  • R$ 900 para o milho;
  • R$ 1.100 para a soja.

Alinhado com os compromissos internacionais ratificados pela 21ª Conferência das Partes (COP21) da ONU, o governo brasileiro lançou o Plano ABC – Agricultura de Baixo Carbono. Um dos seus pilares é a recuperação das pastagens degradadas, no entendimento de que essas são hoje um passivo ambiental. Assim, há a busca por alternativas de atuação para a pecuária extensiva tropical brasileira. Ela apresenta baixa produtividade e, consequentemente, maior impacto ambiental do que deveria. Nesse cenário, a pecuária regenerativa — se bem feita — tem o potencial de duplicar a capacidade produtiva, tanto para a produção de leite, quanto para a de carne. ​Segundo pesquisas reconhecidas internacionalmente, o pastoreio adequado é um fator de revitalização das pastagens, sendo este um dos caminhos para a fixação de carbono no solo em larga escala.

Pecuária regenerativa

Dentre os pontos chave da Pecuária Regenerativa, destacam-se:

  • foco na qualidade do solo e em todas as dinâmicas envolvidas nesse processo;
  • potencialização do metabolismo vegetativo da pastagem;
  • pastoreio racional Voisin;
  • planificação do pastoreio, de forma diferenciada: período das águas e da seca.

Dentre os serviços ambientais do manejo regenerativo da pecuária, além da fixação de carbono adicional no solo, estão:

  • aumento da produtividade por hectare, diminuindo a demanda por mais áreas para a expansão do agronegócio;
  • aumento da matéria orgânica no solo;
  • a melhora no ciclo da água, com maior taxa de infiltração;
  • a conservação do solo, reduzindo a ocorrência de processos de erosão e lixiviação;
  • melhor dinâmica das comunidades e microbiologia do solo;
  • o bem-estar animal, obtido pela oferta de capim de melhor qualidade;
  • a oferta de produtos mais adequados do ponto de vista ecológico, entre outros.

pecuaria regenerativa

Nas figuras acima, percebe-se a diferença do desenvolvimento do sistema radicular das plantas, responsáveis pelo incremento de carbono no solo. Ao centro do quadro, nota-se o maior sistema radicular proporcionado pelo manejo regenerativo da pecuária. Nas extremidades do quadro, o sistema radicular aparece debilitado, devido ao manejo ineficiente da pecuária convencional.

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Um novo paradigma

A quebra de paradigma passa pela inversão da lógica do processo. A função mais importante das fazendas destinadas à pecuária passa a ser o desenvolvimento da condição ideal de produtividade orgânica do solo. Esse procedimento irá desencadear o processo sintrópico, muito similar ao das agroflorestas, conforme quadro abaixo:

sintropia

A vida abaixo do solo possui o dobro da biodiversidade em relação à que está acima do solo. Cada grama de solo contém mais de 100 milhões de organismos, conforme demonstrado abaixo:

biodiversidade solo

O manejo adequado do solo favorece toda a dinâmica de comunidades do ecossistema, a fertilidade do solo e também traz grandes benefícios para a maior produtividade da pastagem.

Benefícios econômicos e ecológicos

No que diz respeito aos benefícios econômicos, dependendo da realidade encontrada, o manejo regenerativo da pecuária pode multiplicar a produtividade da atividade de 2 a 5 vezes. Isso aproxima seu lucro ao das estrelas do agronegócio brasileiro, como a supracitada agricultura de grãos.

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Uma experiência que já começa a dar resultados é o caso da Fazenda Bugre, de Bruno Andrade. A propriedade fica no município de Prata, no Triângulo Mineiro. Andrade integra o seleto grupo de pecuaristas do Projeto Pecuária Neutra. Segundo ele, a pecuária regenerativa traz grande melhora na parte ambiental e social. E aumenta muito o lucro e a produtividade da fazenda:

“Com a introdução de raças britânicas e um manejo adequado das pastagens, consegui triplicar a produtividade da fazenda em 2 anos. Isso mostra que não é preciso desmatar para aumentar a produção brasileira. Temos muito espaço para crescer nas áreas já abertas. E, assim, ter um crescimento sustentável”. Bruno Andrade, Fazenda Bugre (MG)

A pecuária regenerativa parte da premissa de que os herbívoros sempre existiram. E de que ocupam um importante papel no equilíbrio dos ecossistemas, que consiste em fazer o manejo de poda dos campos de pastoreio. Nessa perspectiva, o homem e o gado podem atuar como elementos de revitalização dos ecossistemas. Eles replicariam o histórico bem sucedido do período anterior à domesticação dos animais, quando estes se moviam em manadas livres em busca de alimentos e em fuga dos predadores.

Avanços

Worldwatch Institute reporta que os últimos avanços no manejo do sistema produtivo na pecuária regenerativa podem revitalizar os ecossistemas e as comunidades, com foco especial nos animais, no solo e na produção de capim. É necessário que essas técnicas sejam mais difundidas no Brasil. Aqui, a maioria dos pecuaristas tem uma boa sensibilidade sobre a necessidade da evolução do seu rebanho, com animais mais produtivos e precoces. A maior parte deles não se considera como produtor de pastagens, ou agricultor de capim. Tampouco é fácil achar um pecuarista que se envolva de forma significativa com questões relacionadas aos solos (matéria orgânica, taxa de infiltração de água, microbiologia do solo, entre outros) e o ecossistema como um todo.

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pecuaria neutra

Pecuária regenerativa e a nova economia

Vale registrar que esse caminho viável passa pelo atendimento das novas demandas do consumidor moderno. Ele quer saber de onde vem sua comida, e a sustentabilidade envolvida na cadeia de custódia desse alimento. E, vale lembrar, também está preocupado com o bem-estar dos animais.

Quem pratica a pecuária regenerativa mostra como o produtor contribui para a melhor harmonia entre a demanda da sociedade e a natureza. Por outro lado, também atesta que os animais tiveram o bem-estar presente em todas as fases da sua vida.

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A pecuária brasileira é uma das maiores do mundo, tanto na carne quanto no leite. E tem potencial de prestar muito mais serviços ambientais do que vem fazendo.

A diferença é o manejo, o entendimento do todo, o desenvolvimento de práticas de gestão e manejo do rebanho que proporcionem o melhor ciclo e aproveitamento da água, o balanço de energia, a fixação de carbono no solo, a dinâmica das comunidades ecológicas e microbiologia do solo, entre outros. Ou seja: escutar a terra, o meio ambiente. Colocá-los para trabalhar a favor da melhoria contínua e sustentável de todo o sistema. O que traz melhor produtividade e resultado econômico da porteira pra dentro da fazenda.

Sustentabilidade e oportunidades

Após as colocações apresentadas e o devido aprofundamento no tema de cada um, convido os leitores a responderem uma pergunta:

Em um mundo que “esquenta”, quais são as boas oportunidades?

O mundo da “Economia verde” ou da “Economia de baixo carbono” pode ser tão ou mais promissor do que o mundo alimentado pelo combustível fóssil. Vale assinalar que o Brasil é um dos raríssimos países do mundo em que a economia é mais competitiva nesse cenário de mudanças. Fato esse atribuído pela sua condição natural de líder em produção mundial de “biomassa”. Isto é, toda a produção de alimentos e matérias primas da agropecuária tropical. Se bem manejada, essa produção pode fixar significativas quantidades de carbono no solo e prestar diversos outros serviços ecossistêmicos.

Por isso, a sociedade brasileira tem mais a ganhar do que a perder nessa nova realidade. O Brasil pode gerar produtos e serviços mais competitivos do que outros países na Economia de baixo carbono do que na atual. No que diz respeito ao potencial da pecuária regenerativa brasileira, ela pode ser líder mundial em sustentabilidade: ambiental, social econômica.

Saiba mais sobre a pecuária regenerativa

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