Se não respeitarmos os distintos grupos no Brasil, não atingiremos a Conservação da Biodiversidade

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(foto V. Chiaravalloti)

Autores: André Luiz Siqueira; Fernando Francisco Xavier e Rafael Morais Chiaravalloti

A conservação da natureza no Brasil tem vivido inúmeros momentos de insucessos, e muitos outros estão ainda por vir. O entendimento de como chegamos aqui passa por uma complexa trama, que pode ser explicada de diversos pontos de vista, tanto de uma linha mais filosófica, antropológica, sociológica ou histórica, como de um ponto de vista mais biológico. E exatamente nessa “transdisciplinaridade” das explicações é que mora uma das grandes falhas: em conservação da biodiversidade, as múltiplas ciências pouco ou nunca se conversam.

Não é difícil identificar um ódio histórico entre alguns atores da conservação que, em principio, lutam pela mesma causa. A incapacidade de não notarmos que o outro luta pelo mesmo objetivo gera preconceito e violência. Há radicalização tanto à direita como à esquerda, e o desconhecimento da complexidade ambiental dos ecossistemas do Brasil, assim como do seu pluriculturalismo, direitos sociais e históricos, em especial dos grupos culturalmente diferenciados, são deixados de lado em razão de crenças, muitas vezes, quase fundamentalistas. O objetivo se torna desconstruir o grupo oposto, esquecendo do seu próprio.

A proteção de Unidades de Conservação é um dos exemplos clássicos. Socialmente e ambientalmente existe uma imensa fragilidade dos fundamentos teóricos que poderiam dar suporte às técnicas de manejo das UCs. Por exemplo, como populações de espécies móveis no espaço se comportam em Unidades fixas no espaço? Quais arranjos tradicionais permitem que comunidades consigam adequar o seu uso aos direcionadores ambientais? Quais são os mecanismos tradicionais de pesca, pastoreio, extrativismo, que criam um regime de comum propriedade e coletivo de manejo? Em que grau políticas locais influenciam o uso de recursos naturais? Tais perguntas ainda estão sem respostas. Carecemos de ajustes do conhecimento socioambiental no Brasil para adaptarmos as ferramentas de manejo às novas políticas de gestão ambiental. Essas são as verdadeiras perguntas que deveriam ser respondidas. No entanto, constantemente caímos na velha dicotomia sobre quem está certo: a abordagem “biocêntrica” ou a “sociocêntrica”?, sem resultados efetivos para nenhum dos dois. Enquanto diferentes lados disputam para saber quem fala mais alto, o verdadeiro impacto ocorre de maneira silenciosa e devastadora.

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(foto W. Tomás)

Claro, o mundo não é harmonioso politicamente, diferentes grupos, legitimamente, disputam projetos de sociedade distintos. As várias visões políticas são saudáveis. No entanto, no caso da conservação ambiental, tal dicotomia tem impedido que uma grande rede em prol de um mundo um pouco melhor se conecte. Não há nenhuma dúvida que a atenção aos povos e comunidades tradicionais vai além da obrigatoriedade — é olhar fundamental sobre o ser humano, cidadania e democracia. Assim como que um ambiente equilibrado e protegido é um direito de todos, inclusive das espécies que vivem nele. Ambas as visões estão certas, e, se alguns acreditam que uma está acima da outra, isso não deve impedir que ambas caminhem juntas em torno de um objetivo comum. O que vemos hoje é um time de futebol em que todos os jogadores estão na área tentando fazer o gol. Esquecemos que para ganhar o jogo contra a destruição de áreas naturais e eliminação das minorais é preciso um esforço coletivo e uma convergência para salvaguardar a sociobiodiversidade brasileira.

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(foto. alguém que não me lembro)

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