O mundo das empresas e comunidades tradicionais no Pantanal: problemas distintos soluções semelhantes

por Rafael Morais Chiaravalloti e Claudio Valladares Pádua

Pantaneiros e empresários são pessoas muito diferentes. Talvez ambos se encontrem em alguma pescaria nas férias de julho no meio do Rio Paraguai, em que a canoa de um cruza o barco no outro. Até agora, provavelmente, a comunicação tem se resumido a um aceno de mão. No entanto, as novas teorias econômicas e sociais, têm mostrado que uma pequena conversa entre os dois poderia ajudar os visitantes do Pantanal a revolucionarem o mundo dos negócios. Basicamente, temos descoberto que a maneira que pescadores pantaneiros desenvolveram para manejar a pesca na região, tem paralelos interessantes com a complexidade do mundo que as empresas vivem atualmente. Entender esses padrões e readapta-los, pode ser a chave para uma mudança de paradigma.

O Pantanal é um ambiente complexo, e as pessoas que vivem nele têm que buscar mecanismos igualmente complexos para sobreviverem. Soluções simples para ambientes complexos jamais irão funcionar. Assim como nas empresas.

Anualmente uma grande enchente inunda até 80% dos 160 000 Km2 do Pantanal. No entanto, as características da cheia mudam. Áreas que foram inundadas em um ano poderão estar secas no ano seguinte, e vice e versa. É impossível prever quais áreas terão água e quais não. Outro ponto importante é que a inundação funciona como uma grande onda. Na Borda Oeste, por exemplo, ela começa na região norte e termina no sul do Pantanal, levando cerca de 3 meses para atravessar todo o bioma. O exato momento que a onda irá chegar, e quanto tempo irá durar em um exato local, também é impossível prever. Por fim, muitas baias ou lagos ficam fechados por causa da vegetação flutuante que impedem o seu acesso. Esses blocos de vegetação se movem no espaço e, constantemente, baias ganham e perdem acesso.

A pesca tem que ser feita no exato momento em que as águas começam a baixar. Assim, como a onda de inundação se move no espaço, as pessoas também se movem. Ribeirinhos não ficam mais que uma semana no mesmo lugar. Soma-se que nem todas as baias ou lagos tem peixe e, dentre aquelas que podem ter, algumas podem estar fechadas. Como as características mudam entre os anos, pantaneiros não podem utilizar hábitos passados para decidir onde ir no presente. A cada semana ribeirinhos têm que encontrar em qual baia esta o peixe. As possibilidades são muitas. Estimamos que em uma das regiões de pesca, existem no mínimo 400 possibilidades.

A pergunta que fica é: qual caminho seguir diante da imprevisibilidade?

O fato é que pantaneiros vivem nessa região há centenas de anos sobrevivendo da pesca. Ou seja, eles encontraram uma maneira.

O sistema de pesca tradicional no pantanal funciona com base em um alto nível de reciprocidade de informação. Um grupo de pescadores saem para pescar. Todos procuram o peixe. A tarde se reúnem para trocar sinais que foram visualizados. Todas as informações são reunidas para tomar a decisão sobre a pesca. Todos compartilham o que viram. No dia seguinte, alguns irão na área decidida e outros irão testar outras novas regiões. A tarde eles voltam e se reúnem para mais uma vez discutir a pesca em constantes sessões de chá mate gelado ou tereré. Esse processo é repetido ao longo do ano todo, e vem sendo feito há centenas de anos. Funciona exatamente como uma loteria em que cada um sabe um número. Sozinhos ninguém irá ganhar nada. No entanto, juntos eles podem dividir o premio.

Chamamos esses mecanismos de Sistemas Adaptativos Complexos. Entre os pantaneiros, não existe uma decisão central sobre onde pescar, pelo contrário, ações são tomadas com base no comportamento do outro. No entanto, juntos fazem o grupo criar uma adaptação fina em relação ao ambiente. O mais importante, é que esse sistema que cria um mecanismo sustentável de uso de recursos naturais.

O mundo das empresas

Esse tipo de estrutura social encontrada pelos pantaneiros sobre os usos de recursos naturais conseguiria impedir que novas crises como a de 2009 acontecessem, pois supriria uma das angustias que o Professor Michael Thompson apontou para o mundo dos negócios na sua teoria sobre Mudanças nas estações de risco (Changing Seasons of Risk).

A teoria aponta que ao longo da história a economia passa por diferentes estações que se dividem em: Uncertain (Incerteza), Boom (Baixo Risco), Bust (Ambiente de grande perda) e Moderate (Ambiente de risco normal).

Em cada estação investidores, empresas e o mundo dos negócios como um todo precisam se adaptar aquela realidade. Exatamente como os pantaneiros. Em cada momento da cheia, eles devem encontrar um novo lugar para buscar os recursos.

No entanto, diferente dos pantaneiros, as empresas têm se organizado de forma bastante hierárquica. As decisões são basicamente feitas pelos CEOs. Assim, a compreensão sobre em que estação a economia esta passando, e qual seria o comportamento mais correto da empresa, fica restrito apenas à algumas pessoas. Segundo o Professor Thompson, um dos motivos da crise de 2009 foi exatamente esse. Opiniões dissidentes de um pequeno grupo de CEOs não eram respeitadas. Assim, não souberam se readaptar as mudanças das estações. O momento mudou, mas as empresas não.

Hoje vivemos, o que filósofo Zygmunt Bauman, chama de pós-modernidade. Basicamente, os tempos são altamente incertos e as mudanças de estações na economia são abruptas. Ou seja, há uma necessidade muito bastante grande para que as empresas constantemente se adaptem. No entanto, a mesma estrutura hierárquica que levou as empresas a crise de 2009, ainda continua.

Os pantaneiros por outro lado, estão há centenas de anos se readaptando a tais mudanças. Eles se organizam em um sistema adaptativo complexo que constantemente se readéqua à decisões conforme o ambiente esterno.

Um outro importante ponto do sistema criado pelas comunidades ribeirinhas do Pantanal é que há sempre espaço para aprendizado. E, talvez esse seja, o maior ensinamento que as empresas possam ter.

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