Wilsinho e a onça

Arrumando os equipamentos para a próxima expedição do projeto Desenvolvimento de Tecnologias para Valoração de Serviços Ecossistêmicos e do Capital Natural em Programas de Meio Ambiente (haja fôlego), estava lembrando com nostalgia da primeira vez que encontrei com uma onça-pintada em campo. Na época já havia participado de capturas e tido a sorte de ver o bicho na barranca do rio. Mas considero esta a primeira pois uma coisa é tirar fotos de dentro da segurança do carro ou barco… Já encontrar com uma onça-pintada andando por uma trilha é outra conversa… Como bom mineiro, segue o causo!

“Uma máxima milenar de filosofia ou livro esquisotérico de auto-ajuda diz:

– Cuidado com o que deseja…

Ela continua valendo até hoje… Se você digitar isso obterá 1.320.000 resultados em 0.64 segundos no Google…

Pois estávamos eu e meu bravo escudeiro Wilson em aventuras inenarráveis no Parque Estadual das Várzeas do Ivinhema, Mato Grosso do Sul, nas atividades de campo dos projetos Detetives Ecológicos e Grandes Felinos do Alto Paraná . Atravessando quilômetros e quilômetros de brejos, pastos, aterros e o que mais se puder imaginar, volta e meia buscando tratores em fazendas para desatolar a caminhonete. Dormindo na mesma e em galpões de oficinas de fazendas, aprendendo na marra a consertar motores a diesel. Quase cheguei a concordar com alguns amigos sobre a infelicidade de uma Toyota “Band”, se não adorasse esse quase-trator. No entanto, nesta expedição a caminhote atolou diversas vezes em locais em que passava com facilidade… Quando já estava me sentindo o motorista off-road mais meia roda do mundo, descobrimos que entre os outros incontáveis defeitos a caminhote perdeu a tração 4×4. Com a honra de pesquisador de campo Jedi restaurada, continuamos nossa missão a duras penas e pernas – haja pernas para andar pelos rincões…

Apesar da exaustão física, moral baixa e – incoerentemente – prazer e satisfação (não, não somos masoquistas…) que o “varjão” consegue proporcionar, seguimos nossa missão com a segunda etapa da expedição: revisão de armadilhas fotográficas de barco pelo rio Ivinhema. Com um vento absurdo fazendo nossa lanchinha de alumínio sacudir, paramos diversas vezes. No fim da tarde, na penúltima armadilha, paramos o barco no barranco, como sempre fazíamos, e descemos. A armadilha estava a cerca de 20 metros da margem, próxima à foz em que o rio Fumaça encontra o Ivinhema. Enquanto trabalhávamos, Wilson chamou a atenção para uma cena, digamos, bizarra. Um gavião-belo morto pendurado por uma das asas em uma árvore. A asa estava presa por um anzol com chumbada e tudo. Uma ave de rapina fisgada como um peixe por uma árvore pescadora! Quem precisa de alucinógenos?

gavião-belo no Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema
“…um gavião-belo morto pendurado por uma das asas em uma árvore. A asa estava presa por um anzol com chumbada e tudo. Uma ave de rapina fisgada como um peixe por uma árvore pescadora…”

Mais tarde, quando voltávamos para o barco atravessando uma pequena trilha, o sol de fim de tarde reluzindo no rio criava uma jogo de luz e sombras nas árvores. Quando de repente uma das sombras pulou da árvore e cruzou rapidamente a beira do barranco. A sombra de um felino com mais de 80 quilos em trote rápido seguindo na direção do barco.

A onça!!! Gritou Wilson, ao mesmo tempo em que meu corpo reagia instintivamente à visão bombeando litros de adrenalina pelas veias, fazendo meu coração querer criar pernas e sair correndo…

[email protected]#$%^&*!!! Cadêla??? Pronkafoi??? Cetavenela??? *&^%$##@!!! — Gritei por minha vez em bom mineirês assustado.

Nos movemos devagar e conseguimos ver através da vegetação algumas pintas se movendo… calmamente!?!? Deitada? Se lambendo no barranco logo acima de onde deixamos o barco!!! Ué, cadê a besta-fera das florestas neotropicais? Ficamos lá extasiados pelo misto de medo, alegria, emoções indescritíveis e… surpresa! Ela estava lá – e provavelmente esteve a nossa volta todo o tempo que passamos ali, julgando pela direção de onde veio – tomando seu banho de gato no entardecer do Ivinhema, praticamente ignorando o dois grandes primatas bípedes que ficavam cochichando sobre o que deviam fazer.

Primeiro pensei: O que Sasha Siemel faria? Não, não é uma boa idéia… Hummm. O que Brian Boltano faria? Difícil avaliar essas coisas… Vamos improvisar…

— Temos que chegar no barco, Wilson! — A essa altura já estávamos conversando normalmente, quase que ofendidos com a esnobe onça que mal olhava para nós.

— Como, com a onça lá? — Respondeu Wilson.

— Preciso de pelo menos uma foto! Vamos chegar mais perto, Wilson? Vamos até aquela árvore! Vamos manter sempre alguma coisa entre nós e ela!

Muitas fotos, até um videozinho, mas as fotos (e o vídeo) ficaram muito ruins com a luz do interior da mata contra o reflexo do rio. Hummm…

— Pega o tripé lá no barco, Wilson! Hehe!!!

— Vai você, mineiro!

onça-pintada no Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema.
“…Ela estava lá – e provavelmente esteve a nossa volta todo o tempo que passamos ali julgando pela direção de onde veio – tomando seu banho de gato no entardecer do Ivinhema, praticamente ignorando o dois grandes primatas bípedes que ficavam cochichando sobre o que deviam fazer…”

Passados mais de quinze minutos desde que a vimos pela primeira vez, resolvemos dar um jeito de sair dali. Volta e meia ouvíamos um ruído surdo e abafado de algo parecido com um serrote nas proximidades…

Cada vez que o som se repetia, ela olhava na direção do barulho como quem está esperando que o tal do serrote venha andando.

— Wilson, acho que é um casal…

Resolvemos não ficar para o encontro. Não fomos convidados, nem nada, não seria muito educado. O bom convidado sempre sabe a hora de ir embora. Até por que quando onças estão em casal elas podem estar interessadas em coisas que devem preferir fazer a sós, vai que rola um clima…

— Vamos gritar!

— Gritemos!

— Haaaaaaaaa, iaaaaa, shazaaaammm, pelos poderes de Grayskull, espada justiceira, são Looonnnguiiiinho…

— E… Nada… A onça ficou olhando para nossa cara, quase rindo da “presepada”…

— Vamos jogar um pau nela! — Disse Wilson.

— Vamos lá! — Respondi.

Como os primeiros hominídeos correndo de tigres-dente-de-sabre, jogamos paus na direção de nosso temido e adorado objeto de estudo. Dona Chica teria se admirado com os dois malucos politicamente incorretos atirando paus no gato…

Ela só saiu o suficiente para sumir de vista e se escondeu atrás de uma árvore. O que nos deu tempo de, aos trancos e barrancos, quebrar o recorde mundial de corrida, entrada e partida em barco a motor. Tão logo o barco começou a descer ao sabor da corrente, ela voltou e deitou no mesmo lugar! Só saiu quando ligamos o motor.

Descemos o Ivinhema rumo ao pôr-do-sol com sensações que não podem ser descritas pela linguagem falada ou escrita. No fim, tudo que pensava no final do dia eram nas palavras de Edgar Allan Poe:

“… And my soul from out that shadow that lies floating on the floor shall be lifted – nevermore!”

Wilson
“Descemos o Ivinhema rumo ao pôr-do-sol com sensações que não podem ser descritas pela linguagem falada ou escrita.”

[pH]

assinatura_fernando

12 Comentários


  1. Que bela narrativa no qual se pode perceber o êxtase ,medo euforia tudo em suas devidas proporções

    Responder

  2. Muito bom !!!
    Fer, faltou apenas o pão de queijo e o café p/ escutar vc contando essa aventura maravilhosa…

    Responder

  3. Grande aventura, contada com uma pitada de humor nerd. Ficou muito bom!

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *